TROPICALIA - Resenha Crítica
Para entendermos o surgimento da Tropicalia, primeiro precisamos entender o contexto em que o Brasil vivia, tanto musicalmente quanto politicamente. A música consumida e divulgada pelo país para todo o mundo era a Bossa Nova. Um estilo de música consagrado por grandes nomes como João Gilberto e Tom Jobim. O Rio de Janeiro era a capital cultural do país, onde grandes músicos, poetas e artistas em geral se reuniam para expressar em arte as belezas que a cidade carioca proporcionava aos olhos de quem visse. Os anos 60 começam de uma maneira que dificilmente iria se imaginar como terminaria.
Em 1964 o país sofre um golpe de estado e os militares tomam conta do Brasil. Atos institucionais são lançados indiscriminadamente para impor o pensamento e as ideias militares de governança. Entre estes Atos, a censura atinge principalmente músicos e jornalistas, podando qualquer manifestação contrária ao que os ditadores pregavam. No meio deste turbilhão vivido no país surge um movimento cultural liderado por Caetano Veloso chamado Tropicalia. A partir de então a música se torna um instrumento de combate a ditadura. Suas letras ácidas e ambíguas trazem no seu âmago toda a crítica ao sistema governamental instituído a força no Brasil.
Foi no festival de MPB organizado pela TV Record em 1967 que, como definiu Favaretto, aconteceu a "explosão" do movimento, caracterizando de vez a Tropicalia. Devido ao sucesso estrondoso de "Alegria, Alegria" e "Domingo no Parque", o governo lança o Ato Institucional n5, legitimando a censura de todos os veículos de comunicações e prisões arbitrárias por todo o território nacional.
A Tropicalia revolucionou a música não só por suas letras, mas também pela mistura cultural inserida nas composições. Compositores tropicalistas não tinham receios de "copiar" ideias e misturar estilos diversos. "O tropicalismo representa uma abertura cultural no sentido amplo e com o objetivo da crítica de “gêneros, estilos e, mais radicalmente, do próprio veículo e da pequena burguesia que vivia o mito da arte” Favaretto (2007).
Violões e flautas foram substituídos por guitarras elétricas e efeitos sonoros. A forma de cantar muitas vezes lembravam discursos, e a miscelânea cultural era evidente em cada nova obra composta. O tropicalismo era uma mistura de gêneros, debochada, critica e principalmente uma maneira ilegítima de expressar toda a angústia de uma população que vivia em uma crise de identidade.
O lançamento do "Tropicália ou Panis et Circensis", em agosto de 1968 foi a consagração do gênero. Segundo Favaretto "o LP consistia na redescoberta do Brasil, volta às origens nacionais, internacionalização da cultura, dependência econômica, consumo e conscientização”. O tropicalismo deixou uma herança cultural mais forte que a musical. O tropicalismo foi vivido, interpretado e traduzido, para que assim o direito a expressão fosse respeitado. Tropicalistas fizeram mais que música. Criaram um modelo de conduta para que pudéssemos ouvir o que ouvimos nos dias de hoje. Para viver da maneira em que vivemos.

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